Conspiração Mandra: os ladrões da boa-fé
Pelo traço, essa tirinha é de Laerte.

Com a banalização da violência, é cada vez mais difícil distinguir a prática de um crime que de tão comum já beira o simples "desvio de conduta". Refiro-me ao estelionato, o artigo mais famoso do Código Penal (171), do qual somos vítimas constantes nos grandes centros urbanos. Sem querer parecer nazi, mas alguns pedintes, mendigos e os famigerados flanelinhas, "tomadores de conta" que na verdade tomam é o nosso suado dinheirinho como se fossem os donos das vias públicas, são a institucionalização da vadiagem. Ops, errei. Esse é o nome científico do Bolsa Família. Mhuahahaa. Com ressalvas aos que ainda se propõem a lavar o carro do cliente, pois isso sim é trabalhar.
O fato é que, além de receber a mesada governamental, algumas dessas pessoas gozam de plena saúde e capacidade para o trabalho - mas preferem a estrada curta da perdição, custeada por pais de família de sentimentos cristãos que acreditam estar ajudando uma mãe com um filho de colo (quando, na verdade, é uma criança "alugada" para custear a manutenção do vício do crack).
Diariamente, no semáforo da Rua Gervásio Pires com a Av. Conde da Boa Vista, é possível se deparar com um ceguinho sendo puxado pelo pai, a mendigar alguns trocados. Seria triste se o cego fosse realmente deficiente, mas eu conheço a peça de outra freguesia (bem distante, por sinal), lá das bandas do Habib's de Piedade, onde ele vendia Chicletes Adams. Ele comercializava com seu irmão albino - este, um trabalhador de verdade, que agora vende frutas. Agora, distante 25 km do ponto antigo, o que-se-diz-cego imagina que os motoristas do Centrão do Recife jamais estiveram em Jaboatão dos Guararapes.
Dia desses comprei uvas sem sementes e morangos ao albino, que permanece em Piedade. Quando terminamos a negociação, eu provoquei: "tenho visto teu irmão no bairro da Boa Vista. Ele está no lugar certo, pois agora tira onda que é cego, já pensasse?!". O rapaz ficou vermelho, tomado por uma fúria movida a vergonha e desabafo, entregando todo o esquema do 171: "ele e meu pai querem o caminho mais fácil. Isso pra mim é igual a roubar", disse o albino, que pelo visto, mora com a mãe. Comprei mais duas bandejas de morango, só para ajudá-lo a acreditar que o trabalho enobrece e remunera o homem. Mas é certo que os trocados faturados pela dupla dinâmica igualam-se (ou superam) à margem de lucro da ovelha branca da família.
Na terça-feira, quando eu estava saindo da Universidade Capitalista de Pernambuco - onde deposito todas as minhas esperanças, créditos e juros bancários - fui abordado quase invasivamente por um magrinho que é a cara de Djavan e se diz "guardador de carros", na vã esperança (para ele) de me tirar algum dinheiro.
Visivelmente lombrado, o desocupado me abraçou, me chamou de "meu patrão" e ainda veio com uma conversa fiada de que era pai de três filhos. Eu, que só paro meu Santana no estacionamento oficial da Unicapt, sem recorrer a esses malas, olhei bem para a cara-de-pau do sujeito (esta semana estou com "tolerância zero") e argumentei que também era pai de três filhos e que nem por isso eu estava bebendo num dia útil para comemorar minha fertilidade. Aí o sósia de Djavan "se saiu" dançando reggae e praguejando algo.
Eu comentei com o vigilante da Unicap que a minha barba grande e a proximidade com dezembro devem estar me fazendo parecer com Papai Noel, porque o que surge de gente pra me pedir coisas e encher meu saco... Mhuahaha. O vigilante, que conhece a "peça", disse que ele não tinha nem mulher, nem filhos. "Ele queria dois contos para comprar 'a coisinha', vá por mim", entregou o funcionário, falando a língua certa do povo. Bem, estou longe de ser o bastião da moralidade, até tolero o uso de drogas para fins terapêuticos, religiosos, artísticos e fotográficos, contanto que cada um sustente seu vício sem precisar recorrer à mendicância ou extorsão.
Aí fui cair na besteira de comentar o episódio com o atendente evangélico do quiosque de lanches que eu frequento na Unicapt, carregando na emoção ao ponto de comentar que "às vezes tenho vontade de matar um mizerávi desses". O irmão, que se diz são e salvo mas é cheio de hipocrisia no coração (depois detalharei algumas, em outro texto), veio com a resposta na ponta da língua, para defender o flanelinha: "o presídio está cheio de vagas, se o senhor estiver interessado", disse a jovem ovelha do imenso rebanho da Assembléia de Deus. Aí eu ainda perguntei, para ter certeza, se uma das vagas seria para o mala. "É para quem mata".
Eu, que já estava no limite da paciência, tive que rebater sem freio, mostrando a verdadeira face do mal: "ainda bem que sou réu primário e tenho curso superior. Dificilmente eu ficaria preso".
:: Nesse dia, o crente não conseguiu evitar transparecer o semblante do ódio pela impunidade burguesa. Mhuahahahahahahahah!



4 comentários:
Para as mulheres, a luta contra os flanelinhas é mais difícil, querido. Eu bem que já tentei ser mais "tolerância zero" com um desses, e adivinha? Ele perguntou se eu tinha amor à vida. Eu até ensaiei passar por cima dele, mas a minha mãe - uma alma sempre caridosa - argumentou que ele era apenas uma vítima da sociedade.
Essa é a única parte boa de andar quase sempre de ônibus. :D
Ri demais com o arremate maligno... hahahahahahaha
Recordo de um evento que fui com uma amiga, que por sinal era free, o flanelinha queria nos "vender" os ingressos do camarote, mas desconfiamos e fomos para a bilheteria só para ter o desprazer de saber que ele tentou nos enganar. Na volta ao carro ele ainda teve a cara-de-pau de reclamar dos trocados que minha amiga deu a ele, o mesmo saiu esbravejando, dizendo que o valor era de R$ 5,00 pela vaga, por pouco não saio do carro pra arranjar confusão com a criatura, ¬¬.
Hahahaha!!
Adorei o fora no crente. Posso usar também ou está patenteado?? Odeio esses fundamentalistas, que têm ideias terroristas-psicológicas mais destrutivas que o talibã.
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