Acendendo a luz amarela no casamento perfeito
O que dizer de um casamento perfeito, onde a sintonia é completa e há muito tempo palavras não são mais necessárias para saber do que o outro precisa para ser feliz? Acho que é o sonho de qualquer casal viver por longos anos dividindo o mesmo teto numa afinidade só. Era assim entre nós, lá em casa. Não nos faltava nada: a cumplicidade era total, em gestos, gostos e atitudes, sobretudo no campo gastronômico. Mas, um belo dia, a harmonia do lar foi ferida singelamente pela somatização de tantas coisinhas miúdas que foram roendo, comendo e arrasando aos poucos o nosso ideal. Chegamos, enfim, à nossa primeira crise.
Calma, leitoras mais assanhadas, eu ainda não estou disponível. Este texto não tem nada a ver com a minha cara-metade, mãe das minhas três crianças. O casamento perfeito descrito aqui era entre mim e o meu prezado sogro italiano. Mhuahahahaha. E assim, sem perceber, me dei conta de que há alguns meses travávamos diariamente uma guerra fria, uma disputa de espaço - tal qual no reino animal. O leão velho e o leão novo, brigando pelo mesmo território. Carajo, para quê inventei de usar o "leão" como exemplo figurativo? o subconsciente é fogo!
Mas, voltemos ao tema: A demarcação do território, numa silenciosa briga pelo poder - e, tendo como mediadora e fiel da balança a doce filha e esposa, que por questões óbvias não poderia tomar partido por nenhuma das partes no conflito.
Não lembro ao certo qual foi o pivô da guerra fria, se as maledettas janelas ou o guarda-roupa de Nárnia (0nde o velho esconde seu tesouro comestível). Mas acho que foram as janelas mesmo. Depois da interminável reforma, as novas peças deslizantes em vidro temperado de 8mm com travas de segurança passaram a ser manipuladas com muita facilidade. Se antes apenas as janelas laterais eram utilizadas, porque as velhas há muito tempo emperraram irreversivelmente, agora todas seis estão aptas a abrir com a mesma eficiência e suavidade.
Então, nada mais lógico para um apartamento à beira-rio-e-mar do que evitar abrir a janela lateral que fica exatamente em frente à moderna e novíssima TV de plasma, já que a maresia comeu o DVD Player e invariavelmente tende a corroer as peças metálicas da telona. É o ventinho com partículas de sal que a gente não vê mas dá oxidação. Pois o meu sogro insistia em abrir a janela lateral, refrescando com toda a força a minha TV. Quando eu notava a janela aberta, tratava imediatamente de fechá-la e colocar a trava, ao mesmo tempo em que abria as janelas centrais para fornecer a rajada de vento de que ele tanto fazia questão.
Mas bastava o velho passar pela sala para abrir novamente a janela da TV. E eu só notava a fuleiragem quando chegava do trabalho, à noite. Alimentamos durante semanas essa neurose mútua, com nossos transtornos obsessivos compulsivos (até nisso somos almas gêmeas). Ele abria, eu fechava. Até que resolvi interditar a janela. Peguei uma edição inteira do Diario de Pernambuco e forrei de canto a canto, passando por cima da trava de segurança e prendendo com a fita crepe que peguei no guarda-roupa de Nárnia. Ficou lindo. Classificados de Veículos com Vida Urbana de um lado, Economia com Viver do outro. A desculpa formal: tapar o sol com a peneira, enquanto as cortinas novas não ficavam prontas - já que para a TV do velho existe uma capa de veludo que ele cuidadosamente coloca antes de dormir.
Felizmente o projeto das cortinas contemplou a minha necessidade de interditar a janela da TV, pois são oito painéis com blecaute, deslizantes, que são recolhidos até os cantos das paredes - interditando justamente a janela-pivô do conflito.
Paralelamente à questão do "abre-e-fecha" da janela, a geladeira foi outro ponto de disputa de poder. É triste, é baixo, mas acontece nas melhores famílias de sequelados da Segunda Guerra Mundial. Como bom gourmet que sou, experimento alquimias e inovações gastronômicas como naquele programa da TV, "Larica Total" - que não vi, não conheço, só ouço falar. E assim, vez por outra apareço com um chutney de manga, uma geléia de pimenta (UÊPA!) ou de hortelã, para dar o toque de mestre às minhas invenções culinárias.
Eu trouxe para o campo da gastronomia uma importante lição que assimilei com minha hipocondria crônica: sempre leio a bula. Ou seja, rótulos - para acatar sugestões de uso, se for o caso. E assim, "ao abrir a geléia, conserve em geladeira por até dez dias". Certo. Mas quando eu chegava do trabalho, o maldito frasco estava na prateleira da cozinha. Intacto, porém, não-refrigerado. Aí eu botava de volta na geladeira e durante a madrugada o velho tirava. Pura perseguição, pois ele nem ao menos utilizava o tempero. Num dia eu recolocava, no outro ele retirava. Até que passei a esconder as geléias lá no fundão da geladeira, depois do tupperware das sobras do almoço.
O melhor disso tudo é que não há comunicação nenhuma entre nós. Eu nunca disse "não abra essa janela e não coloque a geléia pra fora da geladeira", para não humilhar o velho dizendo que a casa é mais minha do que dele. Acho que respeito é isso. Mhuahahahahah.
No momento, tudo voltou à normalidade. A cortina-painel salvou minha janela e as geléias não estão sendo retiradas da geladeira. Love is in the air. Pelo menos até ele descobrir que alguém está violando o guarda-roupa de Nárnia todas as noites para roubar UM COPO de Amarula.
:: E todos viveram felizes para frente.




5 comentários:
kkkk. Estava com saudade de ler coisa nova no seu blog. Sei que papai é complicado, mas vc é um amorzinho. Te amo. Alessandra
Ow, mandra. Vai ver ele nem se ligou que a maresia pode estragar a TV e que, fora da geladeira, a geleia pode estragar... Será que ele num tá puxando assunto contigo? kkkkkk
Eita, minha gente, não briguem pela geléia de pimenta. Vai chegar mais. E também de buriti, de açaí...
KKKKKKK. O tema não era o que eu desejava, mas caiu muito bem. Vou esperar até janeiro para ver se você bota pra fora a resenha das confras de fim de ano. Se não colocar, acho que você estará "amarelando", pois foi testemunha ocular dos fatos. Ou seja, criou "intimidade íntima" com a turma que aprontou. E isso pega mal para um blogueiro isento.
kkkkkkkkkkkkkkk.Parece uma versão das disputas entre eu e a minha sogra,quando era viva.Ela filava daqui e eu filava de lá. E o filho dela,meu marido,é muito capitalista,está sempre do lado de quem dá mais.Adorei o lance do guarda-roupa de Nárnia,muito bom.
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