Terça-feira, Março 01, 2011

Vou passar 20 dias sem meu sogro

https://www.youtube.com/watch?v=USWdiEkAUls


Era grande a expectativa por causa da viagem do meu sogro para a sua terra natal, Itália. Tanto dele, que esperou durante anos uma nova chance de voltar à Roma, quanto minha, por finalmente ter a oportunidade de curtir um pingo de privacidade no meu próprio lar - ainda que por tempo determinado (20 dias), já que ele mora conosco há oito primaveras.


A semana que antecedeu a viagem foi marcada por pequenos conflitos envolvendo as maledettas janelas, como sempre. Gênio da civilização bárbara, o velho italiano teve a brilhante idéia de pendurar os agasalhos para tomar um ventinho na Rua da Aurora, porque, segundo ele, precisavam "respirar". As peças de roupa ficaram por pelo menos uns cinco dias levando chuva, sol e fuligem dos navios que atracaram no Porto do Recife. Não me incomodaria tanto, não fosse pelo fato de que boa parte dos agasalhos ainda me pertence (frutos da trip of my life, para Londres, em 2004), com cessão ao italiano em regime de comodato.


Mas, enfim, o dia da viagem chegou. Viva! Acordei assobiando um frevo (ôÔÔÔ, saudade! saudade, tão grande... mhuahahahahaha!!!). Almoçamos juntos, ou melhor, dei lugar à mesa para a outra filha dele e o marido, me recolhendo à minha insignificância no sofá, para comer como pedreiro, segurando o prato com uma das mãos e manipulando a colher de sopa, na outra. No menu, feijoada. Comi tanto que dormi profundamente, perdendo um carnaval para o qual eu estava agendado há dias. Transtorno passageiro, já que a liberdade estava cada vez mais perto.

À noite, toda a família fez questão de se despedir do Nonno. Eu, minha mulher, sua irmã e o marido, e nossas crianças todas - e ele feliz ao ver cinco netos correndo pelo Aeroporto Internacional dos Guararapes. O vôo era às 23h50 mas o velho chegou às 20h e nós, às 21h. Como se não bastasse a cara de italiano, ele usava uma camisa e um boné da Ferrari. Despachou duas enormes malas e fez questão de levar uma bagagem de mão que devia pesar uns 15 kg. Apostei minha mão direita que era "um lanchinho" para a longa jornada. Mas o velho não estava com fome. Recusou-se a jantar conosco alegando nervosismo. Nos despedimos e fomos embora antes do avião subir.


Ao chegar em casa minha primeira providência foi saquear o guarda-roupa de Nárnia, usado frequentemente como despensa paralela, tal qual um Plano B (de "boquinha") pelo italiano - que certamente passou fome durante a Segunda Guerra Mundial. Geléias, torradas Bauducco, queijo ralado, creme de leite, licores e enlatados. Tudo em perfeita harmonia. Na prateleira, as bebidas, óleos especiais, vinagre balsâmico e temperos. Na última gaveta, maravilhosos supérfluos.


Arrumei a mesa e nos banqueteamos com as sobras do guarda-roupa de Nárnia enquanto as crianças mais velhas tomavam conta de outro território do italiano: a sala de TV. Naquela noite todos dormimos muito tarde. Fiz até sexo no sofá, depois caguei de porta aberta... Brincadeirinha! mhuahahahah.


No dia seguinte, fizemos a primeira feira sem a presença do meu estimado sogro. Sem combinar nada, comprei alguns itens e minha mulher, outros. Em comum, as duas garrafas de vinho chileno. Para comemorar, claro!

Mas, em menos de 24h a sensação de vazio superou os ganhos em privacidade e fartura. Até hoje, três dias depois, não tocamos sequer nas garrafas de vinho. Quando minha filha adoeceu com febre alta, percebi que a presença do velho não é tão dispensável como eu imaginava. Ele era um apoio logístico para as horas ruins. Ficaria com os meninos para que eu e minha mulher pudéssemos levar a bebê para o hospital.

Enquanto me debulho em lágrimas de saudade ele deve estar se esbaldando por lá. Maledetto! só espero que não me traga um salame artesanal de presente.

3 comentários:

Anônimo disse...

kkkk. Também tô com saudade do meu babbo. Ele é muito chato, mas eu amo. Beijos,
Alessandra

Ps - É despensa, viu?

Xanda disse...

É companheiro,
o tal do ditado que diz "lingua não tem osso" é a coisa mais sábia que já vi nesse mundo!!!!
Xero

Diogo Cabus disse...

Eu falo isso da minha sogra tb... mas a sorte é que eu nao moro com ela... hehehehe... mas sempre tem os momentos que ela faz falta, como na hora que o meu wisky falta, ela sempre tem estoque...
Muito bom o texto, mas eu conheço outro lado de Dom Franco... vai ver pq eu não moro com ele... hehehehe
Grande abraço pra vc e sua família...
Parabéns pelo blog!!!