Sexta-feira, Junho 17, 2011

Tia Louca revê seus conceitos e compra Novo Uno











O apelido "Tia Louca" é mais por referência à sua espontaneidade em falar o que pensa do que a expressão de uma loucura propriamente dita. Ela é só outra vitima do preconceito rotulante que não nos deixa ser o que somos realmente. Hoje a ciência já explica alguns "surtos" influenciados por fatores como um distúrbio hormonal ali, uma sobrecarga de estresse acolá, a falta de grana, o trânsito, ou a raiva daquele bróder que dividia apartamento contigo na época das vacas magras e agora se aproveita de uma resolução do STJ para te imputar uma união homoafetiva querendo mamar na tua pensão de Funcionário Público Federal. Digo isso porque sei que por baixo de todos os signos que possam denunciar a pseudo-loucura de Tia Louca, há nela uma forte presença de uma cultura de conservadorismo.

Em exatos 30 anos, esta foi a primeira vez que ela abriu mão de trocar seu Volkswagen Gol por outro Gol depois de um uso moderado de três ou quatro anos para cada último modelo. Semana passada Tia Louca me telefonou, resolvida a comprar um carro novo. Estando de férias do meu trabalho e da Universidade Capitalista Graças a Deus me propus a acompanhá-la já prevendo uma chance real de gozar (n)o meu merecido descanso.

"Gordo, estou decidida a não pegar o novo Gol. Quero mudar", me disse uma super bem-resolvida Tia Louca. Fiquei boquiaberto, pois normalmente ela nunca ouve sugestões alheias, só as das vozes em sua cabeça. Eu sabia que ela hesitaria dez vezes tentando voltar atrás, mas manteria sua resolução inicial baseada na mesma linha de pensamento com que jamais apagou a primeira resposta ao preencher um gabarito de prova - o que lhe garantiu um título de doutora. "Na dúvida, a sua primeira resposta é que vale. O nervosismo confunde nossas idéias", me ensinou num conselho de última hora, na véspera do meu vestibular.

Pois bem, indiquei o Renault Clio. Ela cortou na hora: "Fui mal atendida, o vendedor me achou com cara de pobre e não me deu atenção", resumiu com ressentimento. Okay, a auto-estima nem é tão alta assim (mesmo tendo o dinheiro para comprar o carro à vista). Minha segunda opção: um Picanto igual ao da minha mulher - também reprovado por ela ter medo de conhecer um câmbio automático. "Gostei do Novo Uno, é simples e bonito", me comunicou já com a certeza de quem fez até o test-drive antes de telefonar para o sobrinho-consultor-para-assuntos-automobilísticos.

No fundo, ela só precisa de uma testemunha de confiança para vê-la assinar o cheque. E lá fui eu para a concessionária (a terceira da Fiat que ela visitou, pois depois de decidida Tia Louca costuma confrontar propostas e barganhar brindes como tapetes e frisos, antes de fechar o negócio). Nesse caso estava em jogo também a avaliação do seu usado, geralmente por uma bagatela. Até então R$ 11 mil para um Gol 2007/2008 com menos de 24 mil km.

Chegamos na vendedora e a negociação começou. Poucos opcionais e apenas duas portas a princípio, com pintura sólida na cor amarela-cítrica "pro ladrão não levar". Depois evoluímos para um 4 portas com Kit Celebration5 e kit Young mais pintura metálica na cor cinza scandium. E, de quebra, uma avaliação ligeiramente menos filhadaputa para o velho Gol, por R$ 1 mil a mais. Eis que após duas horas de quase desistência, troca de cores e "será que devo?" finalmente ela bateu o martelo, sacou o talão de cheques e mandou ver. Depois me pagou um almoço como recompensa.

Levei-a para o Pantagruel, um restaurante com pinta de chique-modesto, bem pertinho da Escola de Aprendizes Milionários onde meus filhos estudam. Caro para o padrão habitual dela, mas totalmente dentro de suas possibilidades como médica. Meu prato demorou e ela almoçou primeiro. Mal chegou minha comida, quis logo ir pedindo a conta. Interrompi o garçom e acrescentei minha bebida e minha sobremesa (sorvete de queijo do reino com calda de goiaba). Ela prontamente pediu outra colher para me ajudar a comer e também outra taça para me ajudar a beber a água de 200ml.

Ontem o carro chegou, dez dias depois de faturado. É claro que fui convocado novamente para dar o suporte emocional no momento da entrega. Conferi os acessórios, o manual, chave reserva, garantia, luzes piscando (e eu atrás do carro gritando "acendeu!") etc. Como já passava e muito da hora do almoço fiquei apenas com a promessa de que este ano ela não somente se compromete a lembrar do meu aniversário (20/06) como vai me dar "um bom presente embora eu não mereça". Mhuahahahahah. Duvido que ela vá gastar R$ 150 numa calça tamanho 60 na única loja que vende meu número.


2 comentários:

ΛLΞXΔN)ЯΣ disse...

Até que enfim sou o primeiro em alguma coisa, não que isso me afete profundamente mas... Cara, seu blog é ótimo, você escreve maravilhosamente bem, vou seguí-lo doravante. Espero sempre ter mais do seu humor pra divertir o meu dia.

Anônimo disse...

Cara,11 mil "joinha" da sua tia é muita filhadaputice desses caras!
No mais, vou dar um tempo nos comentários para você não se engasgar de tanto gergelim. hihihi.
Fabricio.