Quarta-feira, Julho 27, 2011

Reeducando os nossos queridos parasitas adolescentes através do Bullying Educativo

Olhaí um dos meus primos adolescentes passeando com a bicicleta

Ensaiei durante anos o dia em que meus filhos fossem ingressar no vestibular em universidade pública, para dar-lhes um valioso prêmio por merecimento: um carro. Hoje, o meu primogênito ainda tem dez anos de idade e sequer imagina que o automóvel prometido para daqui a oito primaveras pode não sair do campo das idéias. Tudo isso graças a uma lição de vida que aprendi há poucos dias, graças aos queridos primos parasitas adolescentes "Ex-Criança Robusta" e "Pânico", filhos de Tio Hipocondríaco e Tia Marta, respectivamente.

Eis que o período de férias escolares é um dos pesadelos dos pais de classe média com filhos pequenos, categoria em que eu e minha cara-metade nos enquadramos. No meus tempos de criança, nunca me incomodei em ficar sozinho em casa comendo geléia de mocotó e assistindo TV. Em verdade vos digo: eu curtia estar só (e ainda curto, quando é possível). Mas os meus meninos não herdaram essa característica e, na folga, clamam pela presença de amigos ou parentes para compartilhar seus brinquedos e companhia.

E assim, apesar da enorme diferença de idade, convidei meus primos adolescentes para desfrutarem de nossa infra-estrutura audiovisual lúdica: TV de Plasma de 50", SKY e videogame Xbox 360 com Kinect (sensor de movimento). Some-se a isso o novíssimo game Pro Evolution Soccer e eles teriam subsídios para uma tarde de entretenimento infantil, juvenil e adulto, seja lá qual for o seu grau de amadurecimento.

Abrirei aqui um parêntesis para explicar a aquisição do Xbox e da TV, pois como nasci pobre e não tive psiquiatra, sinto a imensa necessidade de justificar os meus supérfluos, apesar de não ser da conta de ninguém o que eu faço com o meu dinheiro suado e remunerado pela força do meu trabalho sem herança e de forma lícita: a TV foi comprada em 24 vezes sem juros, para a Copa do Mundo de 2010 (ou seja, faltam 10 prestações); e o videogame só foi adquirido depois de uma grande negociação com meus filhos que envolveu um trabalho didático com metas, sacrifício e responsabilidade. Como era desejo deles migrar do Playstation2 para o Xbox por causa do tal sensor de movimento (que é realmente fuderoso - mais que poderoso, em pernambuquês), acordei que venderíamos o videogame velho (obrigado, Ed Ruas!) e os 25 jogos, assim como promoveríamos o congelamento das mesadas por dois anos e o cancelamento dos presentes de aniversário e natal por igual período. Ainda assim, eles toparam.

E assim, convidei os adolescentes para todo o conforto lúdico hi-tech do meu lar, durante uma mísera tarde. Ex-Criança Robusta, definido por Tia Louca como "de personalidade vulnerável" aceitou sob condições: "se Pânico for eu vou!". Pânico até mostrou-se animado assim que expliquei a proposta por telefone, mas tão logo me pediu meia hora de prazo para que tomasse banho e se produzisse no devaneio de que eu fosse buscá-los, apresentei-lhe o mundo real: "Ei, meu velho, é para vocês irem de ônibus, pois estou no trabalho".

Pânico, apesar de seu 1.92m e da possibilidade de viajar no ônibus na companhia de Ex-Criança Robusta (que hoje tem uma estatura igualmente cavalar), argumentou que não sabia qual transporte coletivo pegar para ir da Caxangá para o Centro do Recife. Expliquei que pelo menos 40 linhas devem passar no Cinema São Luiz - e que de lá, bastaria caminhar 500 metros pela Rua da Aurora até chegar na minha morada. "Tá bom, a gente vai".

Liguei para o meu filho mais velho e expliquei que apesar de ter ônibus a cada meio minuto a partir do bairro da Caxangá, eles certamente demorariam uma hora para chegar lá em casa, somando o banho e o passo preguiçoso. O menino ficou esperando, de porta aberta, durante toda aquela tarde. Em vão. E chorou quando voltei do trabalho, ao me contar que os primos não apareceram.

Telefonei indignado para ambos e praguejei ferozmente, chamando-os de "vermes parasitas". Tudo bem que me excedi e cheguei a dizer a Pânico "Espero que um bandido invada sua casa, coma seus $%# e dê uma surra em cada um", afinal, eu sabia que há alguns meses o amigo do alheio já andou pescando roupas no varal e arrombou uma grade quando não tinha ninguém na casa da minha querida Tia Marta, acentuando profundamente o apelido do meu primo. Okay, me arrependo de ter sido tão cruel ao externar meus pensamentos.

A solução foi pensar numa vingança mais branda. Uma liçãozinha educativa, bem ao estilo Piaget. E, como todo psicopata que se preza, no dia seguinte liguei para Ex-Criança Robusta, super manso no falar, me desculpando pelo desabafo agressivo e refazendo o convite, cedendo meu horário do almoço para ir buscá-lo no conforto do seu lar. Por razões logísticas de proximidade com minha casa, ele seria o bode expiatório, pagando tanto por ele quanto por Pânico. Mhuahahahahahhaah.

O plano era o seguinte: pegar o verme, deixá-lo a vontade com a Sky e o Xbox e, na volta, abandoná-lo a 1,5 km de casa, sem grana para o ônibus - para o mizerávi literalmente aprender a andar com as próprias pernas. Um processo de amadurecimento instantâneo em apenas uma lição. Pensei até em patentear essa idéia, pois planejei inclusive o momento da "desova", para fazê-lo sair do carro: "Eita, primo, caí nesse buraco e o porta-malas abriu sozinho (a alavanca fica ao lado do banco do motorista). Feche aí ligeiro que aqui é bocada!" (lugar perigoso, em pernambuquês). Quando ele saísse para fechar, eu arrancava em alta velocidade gargalhando como um louco.

Tudo seria filmado no celular - e é aí que mora o caráter educativo da pegadinha, pois antes eu perguntaria como foi seu dia e explicaria que a distância é tão pouca de sua casa à minha que até de bicicleta seria possível nos visitar. E que ele deixasse dessa dependência por carro, que isso só o prejudicaria no futuro (próximo).

Cheguei a fazer um jantar caprichado, com bandejas de hambúrgueres com queijo, bacon e ovos para que nossa vítima montasse seus próprios sanduíches e ganhasse sustança suficiente para a caminhada que iria fazer nos minutos seguintes.

Teria sido perfeito o meu plano, se minha mulher não tivesse ficado presa numa pauta noturna naquele dia (eu precisava que ela ficasse com as crianças), chegando em casa perto das 22h - e aí, sim, era um horário inviável para a lição, pois poderia trazer risco real ao jovem dependente de conforto. Pelo menos ganhei a confiança do rapaz, que achou a tarde ótima e prometeu voltar.

:: Se ele não ler este texto até esta sexta-feira, o convidarei para uma nova maratona audiovisual. Mhuahahhahahahahahhahahaha!!!!!!!!!!!

5 comentários:

Lorena Ribeiro disse...

HAHAHAHA.

Bullying educativo. Totalmente excelente.

Mandra disse...

Lorena, você conseguiu traduzir com perfeição. Posso alterar o título do post ou acrescentar sua definição? Me autoriza aê.

Lorena Ribeiro disse...

Hahahaha. Pode. Creative Commons. Hahahaha.

Dani Alencar disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Adoreeeeeeei! Esses teus primos tao pior que eu! Ontem eu fui da encruzilhada pra setubal, peguei tres onibus (um a mais pq tive q fazer um pit stop em boa viagem) e cheguei inteira e sem reclamar. Td bem q era pra ver o boyzinho, mas creio que isso equivale a jogar videogame para os meninos. Hahaahaha. E nao, eu nao ganhei carro da minha mae pq fui burra o suficiente pra soh passar na universidade capitalista gracas de Deus! Kkkkkkkk

teta disse...

Hahahahah. Saudade da geléia de Mocotó! AMEI. bjs,téta.