Segunda-feira, Novembro 21, 2011

Reencontrando "Negão", meu amigo de adolescência

# Atenção! desde o título desta postagem até o segundo parágrafo, é possível que haja uma leve desconfiança do(s) leitor(es) mais pervertido(s) acerca da minha falta de masculinidade. Na condição de alvo-fácil, sobretudo porque todo mundo sempre pensa que o Gordo é o passivo da história, só tenho a dizer que "O que falam de mim são calúnias..." #

Tão logo ingressei n'A Rede Social, quis testar se realmente Mark Zuckerberg era rochedo ("um bom programador", em pernambuquês) e resolvi pesquisar sobre personagens do meu passado tão, tão distante - de uma época pré-histórica (antes da história de amor com a minha cara-metade) - na esperança de que a possante ferramenta de pesquisa do Facebook me levasse aos confins do desconhecido (que a mulher não conheceu, mhuahahahaha). Ou seja, vasculhei nos cantos mais remotos da memória, em busca da minhas raízes. Em tempo: sou oficialmente dominado desde os 20 anos, mas ela me conhece desde os 17. Tendo eu, hoje, 36, logo concluímos que ela está presente em mais da metade de minha vida.  

E, não podendo deixar de levar em consideração o conselho daquela amiga evangélica da minha esposa sobre "as amizades que valem à pena", virou questão de honra: eu tinha que achar "Negão", o meu amigo de adolescência. 

O ano era 1989. Eu, então com catorze anos, voltava da escola pra casa no ônibus que fazia a linha CDU-Caxangá-Boa Viagem, em companhia de minha irmã, um ano mais nova. O tempo que ficávamos na parada (ponto) de ônibus servia para tirar onda com outros colegas do colégio pé-de-escada da periferia de Boa Viagem. Uma turma imensa pegava o mesmo busão, que seguia superlotado numa algazarra hilária com direito a piadas e até pandeiro e violão. "O passatempo da viagem", como dizia um outro gordinho, à época.   

Eu tirava muita onda dentro do CDU (apelido carinhoso do coletivo) e, entre os que mais gargalhavam com minhas palhaçadas estava "Negão", um cara três anos mais velho que estudava na classe da minha irmã.  Preto, pobre e órfão de pai e mãe, lutava contra as estatísticas para vencer na vida através dos estudos, morando de favor na casa dos tios quase-brancos, que não morriam de amor por ele. A vida sacrificada era um estímulo maior para que Negão se destacasse como o melhor aluno de sua turma, quiçá do colégio inteiro. 

Numa época em que não existia o politicamente correto exagerado, onde podíamos falar sem medo que "a coisa tá preta" e não levar uma repreensão, Negão tinha um vício de linguagem engraçado, chamando todo mundo de... "negão!", ainda que o interlocutor fosse branco como a neve. Daí o apelido dele ser "Negão", não somente por ser um afro-descendente, razão pela qual eu não ter me referido desde o começo deste texto ao bom José. Com todo mundo que ele falava, o prefixo era "Negão". Mais ou menos assim: "Pois é, negão, eu tirei uma nota boa na prova" ou "esse ônibus está muito lotado hoje, negão". Ele usava "negão" até para falar com as meninas. Era, portanto, um vício de linguagem realmente. 

Claro que a má influência d'Os Trapalhões incitava em nós, quase crianças, um certo racismo (que hoje combato veementemente) tanto para cima dos negros quanto para os homossexuais (que não era o caso do Negão, só pra contextualizar). Ele, autêntico afro-descendente, só não chamava de "Negão" um negrinho que também era do mesmo colégio e seguia no mesmo ônibus. Negão fazia questão de sacaneá-lo, chamando-o de "Macaco". E Macaco ficava puuuuto com a fuleiragem, jurando até de morte o amigo-de-cor. Mas ele era bem pequeno. Já Negão, fazia jus ao apelido, e se deixava apanhar do nanico, pela contrapartida de uma gargalhada.

A gente ficou amigo e Negão passou a ir estudar lá em casa, para nos dar seu bom exemplo nos deveres. Superconcentrado, nem se deu conta quando forjamos um flagrante escondendo objetos da casa dentro da mochila dele. A primeira vez foi um choque. Chamei ele, bem sério, e disse: "desculpa aê, Negão, mas eu posso olhar tua mochila pra ver se tem alguma coisa nossa aí dentro?". Ele, sentindo-se insultado, abriu a mochila na hora, com o orgulho de inocente à beira de acabar nossa amizade. Aí a gente resgatava porta-retrato, enfeite de mesa, e tudo o mais que tinha estado na estante, agora dentro da mochila. Uma gargalhada geral denunciou a brincadeira e, na segunda vez que a gente brincou de forjar o flagrante, Negão correu com a mochila escada abaixo e só nos devolveu as coisas no dia seguinte, pra se vingar. 

Bons tempos aqueles. E agora encontro Negão, perdido em São Paulo, com a maior pinta de polícia. "Você estudou no Nossa Senhora do Lorêto?", perguntei. "Positivo!", respondeu meu camarada. E assim, cantemos todos o hino do Criança Esperança: "ter um amigo, na vida é tão bom ter amigos..." 

7 comentários:

Profeloy disse...

Opa, que saudades de ler um texto seu inspirado! Adorei, parabéns!

Anônimo disse...

AMor, quer dizer que vc me conhece há mais da metade da sua vida! Deixa eu fazer as contas...Eu te conheço há metade da minha vida. Desde os 19 anos....Ou seja, em 2012...Vai ser mais da metade da minha vida....Vixemaria!

Anônimo disse...

Que tipo de criança forja um flagrante?? Eu aqui morrendo de rir e pedindo a todos os santos honestos q não deixem meus filhotes fazerem uma marrvadeza dessas.

Anônimo disse...

Bela infância de antigamente, as crianças sabiam TROCAR divertidas experiências...parabéns!

chegou o negão, cheio de paixão...

rafa energia disse...

Grande mandra, hoje me bateu uma saudade dos teus textos. Aí, me divirto c esse aqui. Massa, energia p tu companheiro.

Ursa Parda disse...

Cadê o final?Foi só isso que vcs falaram depois destes anos tds?:( Acredito nada, Conta o resto né????Parabéns ri demais.

pajaraca_n disse...

Cruel, muito cruel uhuhuhu. Muito boa a do flagrante, lembro que na minha adolescência uma amigo escrevia cartas pornográficas para as outras colegas e colocava o nome de outros aluno uhuhuhu. Não era tão cruel como você, mas no dia que o descobriram foi muito engraçado.

Fiquei curioso para saber se seu amigo realmente venceu na vida e se vocês reataram a amizade.